Mais um conto de minha autoria para postar!... Este aqui estava participando do Concurso Nacional de Contos Newton Sampaio, em Curitiba-PR. Minha inspiração veio através de uma criaturinha que realmente existe. Fui testemunha por muitos e muitos dias de sua vidinha, encerrada em um pequenino aquário. E aqui está o resultado.
Devo aqui ressaltar que nada disso seria possível, não fosse uma pessoa muito especial chamada Marcio Paschoal, de quem fui aluna por um período infelizmente muito breve, mas o suficiente para marcar dentro de mim grandes transformações. Conheça: http://www.marciopaschoal.com/ Grande escritor e mestre carioca, Marcio não somente enxergou infinitas possibilidades nos meus escritos como me encaminhou e me encorajou a participar de alguns concursos de contos. Para mim, é e sempre será motivo de muita honra e orgulho poder contar com o seu apurado senso crítico nos meus caminhos literários. Obrigada, Márcio! Tenha sempre em mim, além de uma amiga, uma grande admiradora de seu trabalho!!
E vamos a ele, o conto!
SAGA DE UMA SOLIDÃO DOURADA
Era apenas um peixe, como tantos outros ali naquele imenso aquário à espera de um destino desconhecido. Distraído como era, nem notou quando foi escolhido dentre seus iguais e agarrado pela temida redinha. Muito menos demonstrou resistência, aceitando com resignação a tomada de rumo incerto.
O que o aguardava além da soleira da porta daquela loja de peixes ornamentais? Uma criança capaz de jogá-lo maldosamente em um vaso sanitário e dar descarga? Alguém muito relapso que o deixaria dias sem comer sua ração nutricional ou o entupiria de qualquer outro tipo de comida que não fosse a mais adequada? Sem mais nada a fazer diante da inevitável sorte, procurou apagar os maus pensamentos e lá se foi, num dia sem sol, devidamente acomodado em um saco plástico cheio de água e ar, cuidadosamente seguro pela mão de uma mãe zelosa que só queria ver um sorriso do filho, tão dourado quanto a cor das escamas daquele presentinho vivo.
Foi então despejado em sua nova morada, um aquário pequeno e quadrado cheio de pedrinhas coloridas, mais nada.
Tentou familiarizar-se com o ambiente ao seu redor, que mais parecia uma prisão solitária à luz do dia. Como seria dali para a frente? Ele e mais ninguém, entre quatro paredes de vidro.
Nos primeiros dias de adaptação, pescou sem querer uma conversa entre humanos na sala de estar:
- Espero que esse aí dure bastante, viu? Porque o Betta que eu tinha antes dele amanheceu morto, boiando em pleno sábado de carnaval e foi parar em uma sacola plástica de supermercado, no fundo do tambor de lixo. Deu-me uma trabalheira danada, além de o meu filho passar o dia inteiro chorando. Sem falar no que comprei logo em seguida, que foi um douradinho igual a esse, que acabou morrendo estressado porque o aquário espatifou-se na minha mão e caiu no chão, com ele se debatendo entre os cacos de vidro, a água escorrida e o meu sangue. Eu lá, cheia de dor e de susto, enquanto meu filho gritava, agoniado, apontando para aquela coisinha: “Mamãe, o peixeee!...”
Aquilo ondulou todas as suas escamas, e seu corpinho frágil experimentou um frêmito jamais sentido antes. Então aquele seria o seu fim? Sozinho, inerte e inchado, a boiar naquelas aguinhas quadradas? “Que morte mais estúpida!”, pensou, com suas brânquias.
- Acho que vou morrer é de fome, azucrinou-lhe mais uma vez o famigerado pensamento, pois quando alguém se lembrava de alimentá-lo, ou seja, quase nunca, eram jogadas na água cinco minúsculas bolinhas nutritivas que ele devorava sofregamente em uma fração de segundos, tamanha era a sua fome. Após a refeição, ficava nadando pra lá e pra cá, dando voltas naquele mundinho de nada, submerso em solidão e perguntando-se em que dia seria alimentado outra vez.
Os dias foram passando e a vida seguia o seu curso. À sua frente, viu desfilar uma série de situações cotidianas dos habitantes humanos da casa. Ora o pequeno Gabriel sorria ao contemplar as peripécias limitadas do adorado peixinho, ora chorava motivado pelas birras típicas de uma criança de três anos. Ora a mãe dava beijos estalados e amassos indecentes no namorado no sofá da sala de estar, bem em frente ao pequeno aquário quadrado, ora chorava trancada em sua própria dor, talvez achando que ninguém a estava observando. Risos, festas, brigas e ele ali de testemunha ocular, dia após dia, na mesmice de seus movimentos, no silêncio de seu mundo aquático.
Para não dizer que o ócio reinava absoluto, deleitava-se com a adrenalina promovida pelos momentos da limpeza de sua morada de vidro. E lá vinha novamente aquela redinha, a puxar-lhe com delicadeza para transportá-lo temporariamente a um recipiente que outrora servia de pote de sorvete de dois litros. Era uma verdadeira aventura, pois por questão de segundos, ficava exposto ao ambiente da superfície sem poder respirar, até sentir-se seguro novamente no pequeno pote branco. Passados então alguns minutos sem saber o que lhe vinha depois, o processo invertia-se e o pequeno destemido voltava à sua morada sem graça. Mas apesar desta breve emoção e da novela humana que se desenrolava diariamente diante de seus olhos arregalados, continuava só. Mais só ainda ficou quando lhe foram retiradas as pedrinhas coloridas que enfeitavam o seu reino-cubículo. Por quê? A mãe do pequeno Gabriel já havia reparado a estranha mania do douradinho de bater a cabeça nas pedrinhas, a ponto de o mesmo sempre apresentar uma mancha negra na cabeça, antes inexistente.
Que chateação, viu! Sem liberdade, sem pedrinhas, sem iguais! O que lhe sobrava então? O seu próprio vai-e-vem já o deixava um tanto louco, assim como loucas eram as ideias que lhe passavam pela cabeça, uma atrás da outra. Aproveitaria a saída da mamãe para saltar para fora do aquário e morrer dignamente estirado no tapete da sala? Desejaria ser esquecido, a ponto de não se lembrarem de fazer a costumeira limpeza no aquário e morrer naquela água apodrecida, entre restos de alimento, suas próprias fezes e secreções?
Queria estar em seu habitat natural, se ao menos soubesse como ele era. Ora, não lembrava simplesmente porque desde ovinho era criado em cativeiro.
Deixou de lado as ideias sem sentido para voltar os olhos à janela da sala de estar. No meio daquela tarde, o céu fez-se de um negrume assustador e a mesma água que lhe garantia a vida, caía aos borbotões lá fora. Uma chuva da boa que aos poucos se transformou em um preocupante dilúvio, daqueles que fazem encostas de morros se esfarelarem num piscar de olhos.
Gostava de ver a chuva pela janela em frente ao aquário. Era um de seus poucos prazeres e quanto mais ela engrossava, mais fascinado ficava.
Viu então a chance de sua vida acenar-lhe quando ouviu a empregada atender ao telefone:
- Alô! Oi, patroa! Vai chegar bem mais tarde? Tá tudo parado? Quê? Tudo alagado? Meu Deus!
Observou atentamente quando a moça foi até a janela e avistou do segundo andar a rua tal e qual um riacho, completamente tomada pelas águas. Continuou olhando o novo capítulo humano se desenrolar diante de si e desta vez decidiu que queria fazer parte daquilo. Mas como?
Olhou ao seu redor e nada viu que o fizesse querer permanecer ali, naquela vida tão sem vida. Tomou fôlego e impulso com toda a força que nem sabia que tinha e pulou para fora do aquário, caindo certeiro onde já sabia: o tapete!
No mesmo instante, a empregada notou de longe o brilho dourado das escamas no meio dos fios pretos sintéticos, deu um grito e correu para tentar salvar o peixe do Gabriel e da patroa e se safar de uma baita bronca.
Mas já era tarde. O douradinho jazia inerte no tapete molhado.
Atordoada, pensou rápido em como se livraria do pequenino cadáver.
- Vou jogar no vaso do banheiro e dar descarga! Ah não! Não tenho coragem! Ah, vou jogar no lixo! Não, muita crueldade com o bichinho! Já sei! Vou jogá-lo pela janela, que as águas vão levar!
A chuva caía impiedosamente lá fora, causando tudo quanto é mazela. Com água, ar e sem saco plástico, aquele corpinho cor de ouro foi arremessado pela janela, rodopiou no ar e juntou-se à água barrenta que corria pelas ruas, banhando e levando tudo pela frente.
Puxa, como foi difícil fingir de morto para aquela empregada! Ter que se arriscar em prol de um plano que tinha tudo para dar errado! Um plano absurdo de sair daquela prisão que lhe roubava a vontade de estar vivo!
Estava desorientado, mas conscientizava-se de que estava radiante. Seu plano havia funcionado! Nem mesmo a escuridão das nuvens pesadas do céu encobria o brilho emanado de suas escamas. Sentiu que o seu miúdo coração queria saltar-lhe da boca de tanta emoção represada e que agora desaguava naquela infinidade. E, embora a tempestade tomasse conta do mundo inteiro naquele momento provocando dor e destruição, deslizava satisfeito por entre os córregos. Sequer se importou com a imundície daquelas águas e nem tampouco sentiu falta dos seus iguais, muito menos temeu o porvir. Apenas saboreava a solidão consentida, naquele momento único de liberdade absoluta, ruas acima, ruas abaixo, desvendando enfim os mistérios do além-aquário. E suspirava feliz... e flutuava... e enfim, vivia!

6 comentários:
Maria Bonita!!!
Vc escreve muito bem, adorei. Vou frequentar mais esse seu espaço.
beijoda Marisa
Teu conto me lembrou a história de um "dourado" que eu conheci. Lindo! :)
Achei lindo o conto, querida. A solidão e a liberdade são contrastes da vida. Alguém preso almejando a liberdade enquanto há alguém livre mas preso no seu próprio aquário? Quem de nós não precisa se arriscar, não acredita ter morrido para renascer e enfrentar o mistério do mundo? Amei o conto, parabéns, querida. Escreve lindamente e com uma sensibilidade enorme.
Seria Maria Bonita esse peixinho dourado? Fica a questão na nossa cachola. O que importa é que todos somos eles após ler esse texto.
Bjokas,
XB
http://xandybritto.blogspot.com/
Amiga o que dizer do seu texto? simplesmente maravilhoso e real!!!!!
Parabéns amiga o Gabriel mandou agradecer a lembrança e a participação dele e do peixinho dourado que agora vive livre. Bjs te adoro
A chuva que copiosamente atinge nossa Jampa, serve de elo para o conto dourado, acrescentando raios a um dia tão cinza, mas feliz. Beijos Vermelhos, à la Cora Coralina.
Foi uma viagem dolorosa mas cheia de significados.
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