domingo, 25 de julho de 2010

O hino ao amor de um pequeno pardal


                 Hoje, 11 de maio de 2008, domingo, dia das mães, vi um filme o qual estava me devendo havia algum tempo: “Piaf: Um hino ao amor”.
          Confesso que o adiei por muitas vezes, bem como subestimei a sua grandeza, e agora sinto-me inebriada, sem palavras. Escrevo este artigo com lágrimas que insistem em não parar de cair, por ter acabado de vivenciar a experiência de ver uma bela obra-prima do cinema. Estou um tanto desorientada ainda pelas informações que me foram chegadas através da Sétima Arte, um verdadeiro poema que esconde todos os sentimentos de uma mulher. Já tinha ouvido falar de Edith Piaf, a maior cantora francesa de todos os tempos, mas nunca havia me interessado em saber ao menos uma linha de sua intensa, tumultuada e trágica vida. Fui tomada de assalto pela delicadeza, e ao mesmo tempo pelo corte profundo, em carne viva que este filme faz em qualquer pessoa que tenha um mínimo de sensibilidade.
            Vi uma atriz espantosa, Marion Cotillard, ganhando merecidamente o Oscar de 2008 pela sua atuação como Edith Piaf. Para mim, que compartilho do mesmo ofício, não pude encontrar uma palavra sequer que traduzisse o mergulho de cabeça que Cotillard dá no personagem, com a propriedade de quem encarnou de verdade, a alma da cantora. Uma verdadeira aula de interpretação. Mais do que isto, um exemplo de entrega na profissão.
             Vi também uma cantora que viveu até os limites de seus sentimentos e atitudes, indo do inferno ao céu em questão de segundos, sob uma constante corda bamba, somente encontrando equilíbrio e alguma sanidade quando estava exposta no palco, aos olhares e ouvidos atentos, ávidos pelos seus trinados únicos. Uma voz que se calou tão precocemente em 1963, aos 47 anos, maltratada pela vida com privações na infância, rotina boêmia e desregrada, demasia de vícios como o álcool e a morfina, além de inúmeras tragédias pessoais que permearam toda a sua vida. Após o filme, ainda sob efeito “hipnótico”, entreguei-me ao feitio deste artigo e pesquisas sobre a fantástica vida deste verdadeiro mito da música. Encontrei um texto, onde há um trecho que descreve de forma bastante sucinta a sua natureza: “Rosto redondo, expressivo mas sem beleza, cabelos em desalinho, vestido longo escuro, pequerrucha. Sob a luz do palco ela era indomável, irresistível, arrebatadora. Flutuava ao microfone, como um beija-flor frente a uma rosa.”
           Nascida Edith Giovanna Gassion, devido ao seu tipo físico mignon e magro, além de uma voz comparada à de uma ave, seu primeiro empresário - o qual lhe estendeu a mão, tirando-a da miséria das ruas de Paris para o estrelato - dera-lhe o apelido de “piaf”, que quer dizer “pardal”.
        Diante de tal impacto causado no público por aquela figura franzina, o pequeno pardal ganhou o mundo, admiradores, amores e todo o porvir do mundo da constelação de artistas que se destacam. Convém lembrar que nem só de flores vive este seleto mundo de glamour.
              Mundialmente famosa e uma das mais tocadas até hoje, “La vie em rose” talvez fosse o sonho de Piaf, traduzido em forma de canção. A vida em cor-de-rosa. A dela tomou caminhos contrários aos da música de sua autoria. De cor-de-rosa, nada teve.
          Vencida por uma batalha para cantar e sobreviver, viver e amar; envolta em seu mundo arredio, rebelde, egoísta e ao mesmo tempo, tão carente e frágil, Piaf cerrou os olhos, levando consigo a interpretação rasgada de uma música que, segundo ela própria, traduzia toda a essência de sua vida, sem arrependimentos:
             “Não! Nada de nada...
              Não! Eu não lamento nada...
              Nem o bem que me fizeram
              Nem o mal - isso tudo me é igual!
              Não, nada de nada...
              Não! Eu não lamento nada...
              Está pago, varrido, esquecido
              Não me importa o passado!...”
             (Tradução de um trecho de “Non, je ne regrette rien”)
        Edith Piaf foi enterrada em um cemitério parisiense chamado Père-Lachaise, local que curiosamente conheci em 1998, durante uma viagem de estudos pela Europa. Uma pena que, tendo visto túmulos de personalidades como Alan Kardec, Jim Morrison e Chopin, deixei passar batido a última morada desta ilustre dama.
         Por mim, ficaria aqui durante horas falando sobre um filme que me deixou encantada. Porém, deixo para o leitor a tarefa do prazer de desbravá-lo. Deixo apenas o destaque especial de um belo trecho do filme, onde uma jornalista faz uma pergunta muito simples à diva:
             Jornalista: Se fosse dar um conselho a uma mulher, qual seria?
             Piaf: Ame
            Jornalista: A uma jovem?
             Piaf: Ame
            Jornalista: A uma criança?
            Piaf: Ame"
            Após esta cena, o silêncio me parece a melhor saída.
            Marion Cotillard, você me arrebatou vestindo a pele de Piaf.
         Edith Piaf, você tem em mim a partir de agora uma admiradora de sua arte, para sempre.

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