Que a vida de produtor é muito louca, disso ninguém tenha dúvidas. Porém, o mais curioso desta profissão é que nenhum dia é igual ao outro. Quem não gosta de rotina, ama correria e sobretudo a arte, identifica-se logo de imediato.
Uma curiosidade é que trazemos o show até a nossa cidade, ciceroneamos o artista e não conseguimos curtir o fruto de nosso trabalho, ou seja, o show propriamente dito. Explico: exatamente na hora em que o artista sobe ao palco, estamos nos virando em dez ao mesmo tempo, resolvendo mil e um problemas que aparecem quando menos esperamos. É um tal de convidado que trouxe alguém a mais e você não pode dizer NÃO a um patrocinador; é gente tentando burlar a lei da meia-entrada, utilizando identidade estudantil falsa; é o sem fim de caprichos e marras de artista; é o iluminador que ainda não chegou e estamos a quinze minutos do início do espetáculo... Ufa! Sou capaz de ficar aqui o dia inteiro desfiando o rosário de contratempos que encaramos no estafante e emocionante dia de branco de um produtor, sem contar ainda que no decorrer do show, contabilizamos o nosso lucro ou prejuízo na sala de administração do teatro, enquanto a platéia se diverte ou se emociona às nossas custas, no bom sentido é claro.
Porém, aí é que vem a melhor parte, o que nos impulsiona a embarcar nesta loucura toda. Não vemos o que o público vê – o show - mas temos o privilégio de vislumbrar o que a platéia não enxerga. O que nos encanta e nos faz seguir adiante é a magia por trás do pano, é testemunhar o momento mais íntimo do artista, coisa para poucos. No decorrer deste texto, você compreenderá a dimensão da tese que defendo.
Quero deixar aqui um dos inúmeros episódios de minha curta, porém inesquecível convivência com Chico Anysio entre 1998 e 2000, quando viajei algumas capitais do Nordeste fazendo produção executiva para este ilustre e inigualável artista.
Estávamos em Fortaleza, em meados do ano 2000, viajando com o show "O Fofo". Após uma apresentação mais do que abarrotada no Theatro José de Alencar, o velho Chico cismou de não querer jantar no restaurante que estava nos patrocinando. Alegou cansaço, dizendo que queria comer algo no hotel mesmo, onde ele e a produção estavam hospedados. Fizemos então a vontade do grande mestre. O hotel - diga-se de passagem, 5 estrelas - ficava fora da cidade, acho que uns 30 quilômetros. Quando lá chegamos, aproximadamente a uma da manhã, qual não foi a nossa surpresa ao nos deparar com o restaurante fechado? O recepcionista do hotel, um tanto constrangido, nos falou que não havia como preparar nada na cozinha, naquele horário. O que fazer diante de um Chico Anysio “azul de fome”? Achei logo um absurdo um hotel daquela categoria não ter um serviço para atender hóspedes no meio da noite, fosse quem fosse. O velho Chico então não se fez de rogado. Entrou calmamente em uma lojinha de conveniências na recepção do hotel. Esta sim, funcionava 24 horas. Foi até um dos freezers, pegou uma lasanha pré-pronta e pediu que pelo menos a esquentassem no microondas da cozinha do hotel e a levassem ao seu apartamento. E assim foi feito.
Chico lembrou-se de que eu não havia comido nada até então, pois estávamos no mesmo barco, digo, hotel. Mandou que me chamassem até seu quarto para dividir a lasanha. Lá fui eu, cheia de dedos, indo comer uma lasanha com o rei do humor brasileiro...
Chegando ao quarto, me deparei com uma cena que jamais sairá de minha mente. Aquele homem, cujo universo comporta mais de 200 personagens distintos, cujo nome é uma lenda dentre as lendas da história da televisão brasileira, transformava-se na minha frente em um distinto senhor de então 72 anos de idade, vestindo pijama listrado, meias e chinelos Ryder, a trabalhar por trás dos óculos, mergulhado em compenetração e seriedade, lendo e-mails e distribuindo ordens online através de seu laptop. Confesso que fiquei enternecida diante de tão frágil imagem. À minha frente, estava um verdadeiro gigante reverenciado unanimemente, que embalava minha infância ao som de “Baiano e os Novos Caetanos”, que me fazia rir em criança, quando eu ainda nem entendia direito as piadas, mas com certeza já identificava o Coalhada, o Painho, a Salomé, o Alberto Roberto, o Pantaleão, o Bozó, o Bento Carneiro... só para citar algumas “entidades” que ele encarnava sempre com maestria.
O melhor de tudo é que o velho Chico nos deixa à vontade como se fôssemos amigos desde sempre. Enquanto saboreávamos a lasanha juntamente com seu filho e empresário André Lucas, contava-nos causos e piadas e nos deixava contar as nossas, sem nenhuma reserva. Afinal de contas, ele tinha mais é que enriquecer o próprio repertório. Lembro-me de ter ficado impressionadíssima com a vivacidade, o raciocínio rápido e o seu humor agridoce e um tanto sarcástico, típico de quem domina a arte do riso.
Durante toda a minha permanência em seu quarto, a fome e o cansaço quase que prostrado eram o que menos importavam para mim. Me senti tão privilegiada, que compreendi que a lasanha foi só um pretexto para que eu testemunhasse o verdadeiro significado de minha profissão e não mais me incomodei com o fato de não poder assistir às apresentações de “meus” artistas. Toda a grandeza da existência daquele ser diante de mim, tão humano como qualquer outro, porém tão adorado pelas multidões que cativou durante uma vida entregue à missão de levar alegria, estava ali, pulsando, a ponto de me flagrar em total alumbramento.
O dia em que Chico Anysio dividiu uma lasanha comigo me ensinou muito mais do que eu poderia imaginar. De uma maneira especial e única, o velho Chico me proporcionou inconscientemente o maior presente que eu poderia ganhar, assim como as vezes em que o vi concentrado no camarim antes de cada show.
O artista é sim um ser tocado por uma magia especialíssima, totalmente alheia a qualquer entendimento. Porém, quando descerram as cortinas, ele volta à sua condição de ser humano e “perde suas asas” até o próximo encontro com aquilo que faz girar a força motriz de sua existência: o público. Sem dúvida alguma, fora dos palcos, a aura encantada o acompanha, mas encantamento maior é saber que ali está alguém de carne e osso, com as mesmas virtudes, defeitos e sonhos de que é formado o homem.
"Um artista é apenas um homem comum com uma enorme potencialidade - mesmas ferramentas, mesma maquiagem, apenas mais força. E a força que guia sua vida geralmente acha seu ponto fraco, e então ele enlouquece ou deprime. "
( David Herbert Lawrence )

2 comentários:
Iana,
Fiz uma viagem na minha fase criança/aborrescente, lendo e sua deliciosa e bem escrita crônica! O genial Chico e sua extensa trupe de personagens povoam as minhas alegres memórias! Parabenizo-a pelo seu talento como produtora e jornalista!
Bjos,
Sandra
Iana,
Fiz uma viagem na minha fase criança/aborrescente, lendo e sua deliciosa e bem escrita crônica! O genial Chico e sua extensa trupe de personagens povoam as minhas alegres memórias! Parabenizo-a pelo seu talento como produtora e jornalista!
Bjos,
Sandra
Postar um comentário